segunda-feira, 8 de maio de 2017

Exercise Summit 2017 discutiu práticas e novas tendências de exercício físico associadas à saúde



Primeira edição do evento reuniu cerca de 500 participantes no Lagoas Park, em Oeiras Exercise Summit 2017 discutiu práticas e novas tendências de exercício físico associadas à saúde

A primeira edição da EXERCISE SUMMIT, organizada pela EXS – Exercise School, reuniu no passado sábado, dia 6 de maio, em Oeiras, os maiores especialistas em exercício físico para discutir e avaliar as melhores práticas do setor, e abordar as novas tendências desportivas associadas à saúde.

Este evento contou com mais de 500 participantes, entre personal trainers, instrutores de fitness e de
recuperação física, e ainda médicos, psicólogos, nutricionistas, entre outros, para promover a troca de informação e a partilha de experiências entre profissionais e investigadores da área, sem esquecer temas controversos como os treinos de alta intensidade ou os benefícios dos alongamentos na prática de exercício físico.

«O alongamento não tem benefícios quase nenhuns. Não serve para nada», foi uma das conclusões partilhadas por João Moscão, fundador e diretor pedagógico da EXS – Exercise School, na sua apresentação sobre o tema “Alongamento ou Força para uma Melhor Mobilidade”. O personal trainer resumiu cerca de oito anos de estudo e pesquisa que “rompem” com a ideia de que o alongamento passivo é benéfico em contexto de prática desportiva.

 Para o autor desta pesquisa, «não é possível treinar uma propriedade que o músculo não tem», portanto, «treinar o alongamento não é sequer treinar. «Não existem ordens neurais para alongar. Existe apenas excitação muscular ou a ausência de excitação de muscular. Se o músculo não alonga sozinho eu não consigo treinar isso».

O personal trainer recorda que quando um músculo é alongado outro é contraído, e esclarece que «a
força muscular é o principal condicionador do movimento. Ao contrário do que se pensa, o treino de
força não encurta o músculo, não diminui a mobilidade. Na verdade, contribui para o contrário».

João Moscão explica que o alongamento passivo «causa danos estruturais no músculo e provoca um atraso electromecânico», ou seja, «o tempo de latência até se manifestar a contracção muscular, após surgir uma necessidade, é demasiado grande». 

O diretor pedagógico defende, portanto, que «tem de se treinar a contractilidade agonista, treinar aquilo que é treinável», e aponta o treino com resistência (de força) como a solução.

Por sua vez, Hugo Moniz, CEO e fundador da EXS, defendeu que «o treino com resistência deve ser a componente central dos programas de saúde pública», no âmbito da sua apresentação com o tema “Saúde no Mercado do Fitness”. O CEO da EXS alerta que, «se olharmos para o exercício físico como um cuidado primário, e para o treino de força como um cuidado primário, abrimos uma porta para a certificação e reconhecimento da profissão» no campo da saúde. O responsável considera que «confiar na comunidade de profissionais de exercício físico é urgente», e alerta que «nos últimos 15 anos tivemos um aumento de 500 euros por pessoa em termos de custo de saúde em Portugal. 900 milhões de euros é o custo anual da inactividade física no nosso país».

Lucas Leal, gerente do Resistance Institute, de Barcelona, complementou a intervenção de Hugo Moniz, com a sua apresentação sobre o tema “Treino de Força. Transferência e Desenvolvimento Habilidade Funcional/Desportiva”. «Sem força não há exercício. A força é uma das qualidades físicas
básicas», refere Lucas Leal. «Um músculo gera tensão que tem de ser conduzida pelo sistema nervoso. A força é só um dos componentes da realidade funcional», que, para o responsável, depende de fatores genéticos, das qualidades físicas do executante e das qualidades técnicas.

«Nenhuma quantidade de músculo vai ajudar um atleta se este não tem a técnica para usá-la de forma efetiva. Quando trabalhamos a força, devemos ter a certeza que todas as articulações trabalham em conjunto», explica Lucas Leal.

No tema “Fitness Iatrogénico – Práticas Potencialmente Perigosas”, Samuel Corredoura formador da EXS, destacou a importância de encarar a prescrição das práticas desportivas com a preocupação de «olhar para debaixo da pele» do atleta, tendo em conta a sua tolerância ao exercício. «Temos de saber o se está a passar lá dentro sempre que ele levanta um traço. Isso implica estudar». O formador esclarece que deve haver uma inversão de pensamento: «Vou correr para ficar em forma?

Não vou colocar-me em forma para correr. Temos de preparar o teu sistema, temos que preparar os teus músculos».

Este tema foi complementado por Jaime Milheiro, que abordou as “Doenças de Adaptação dos Tempos Modernos”, explicando que «muitas das doenças comuns têm origem na nossa resposta ao stresse. O corpo entra em doença porque não se consegue adaptar ao contexto a que está sujeito».

André Matias, nutricionista especializado em engenharia alimentar, abordou ainda a Sarcopénia, perda de massa muscular associada à idade, do ponto de vista nutricional associado à prática desportiva, defendendo que a alimentação é muitas vezes a resposta para desequilíbrios demonstrados pelo corpo em diversas situações.

“O Treinador como Catalisador da Especificidade do Treino” foi o tema de Nuno Pinho, formador da
EXS, que destacou a ideia de que «catalisar para a especificidade é estimular propriedades intrínsecas de algo ou alguém, neste caso das propriedades músculo-esqueléticas». Para o formador «o exercício é um processo de estimulação e adaptação, que consiste num desafio ao corpo de forma apropriada», no qual o treinador tem um papel fundamental. «O relevante no contexto de exercício não é o movimento, é o que está o está a produzir, que é a tensão muscular», explica. «O propósito da estimulação é a melhoria da capacidade do sistema neuromusculoesquelético controlar e mover as articulações», há, portanto, «uma necessidade de desmontar e perceber o que quero estimular naquele corpo», salienta Nuno Pinho.


Eduardo Carpinteiro, médico coordenador do grupo de cirurgia de ombro e cotovelo do Hospital da Luz, através da sua apresentação “Ombro – Cirurgia e Exercício”, deu a conhecer o trabalho desenvolvido pela sua equipa no tratamento de lesões desportivas, e explicou que «a função do ombro requer força equilibrada». O especialista partilhou vários aspectos que contribuem para o aparecimento de lesões desportivas, como «a moda do aumento do treino de alta intensidade, para o qual muitas pessoas não estão preparadas», mas também o uso de máquinas em ginásio, que, apesar de ser tido como «mais seguro, pode ter movimentos pouco naturais».

Eduardo Carpinteiro alertou que, «num ginásio, um ombro rapidamente se transforma numa articulação de carga, não o sendo naturalmente». O médico referiu que as intervenções mais comuns no seu dia-a- dia são para tratamento das lesões da coifa e dos rotadores, e mostrou vídeos de algumas intervenções realizadas. Aos profissionais do exercício deixou o apelo: «Vocês estão na primeira linha da prevenção. Nós, os médicos ortopedistas, já só podemos intervir para cozer o tendão roto».